segunda-feira, novembro 30

entrecortado


quantas vezes você diz

alô ao telefone mudo?

por quanto tempo suporta o rasgo

do silêncio, a não resposta?


eu respondo o telefone sem dizer

uma palavra, me dou o luxo de esperar

ser dita


eu digo alô cinco vezes, cada vez

mais puta que a outra. tenho certeza

de que alguém está lá (por toda a minha vida

tentaram me contar um trote)


eu digo alô dez vezes, cada vez

mais alto que a outra. tenho certeza

de que me escutam mal. porque grito

e não me ouvem. porque corro

e não me movo. porque vivo

e ninguém vê


eu não atendo o telefone, é extremamente

arriscado

pode ser engano, pior: pode ser que alguém

realmente queira falar comigo


eu não tenho telefone

nada do que esteja fazendo, ainda que

seja nada, deve ser interrompido


coser a vida me custa atenção, um susto

furo meu dedo. me relaciono a duras penas

com aquilo que vejo; trim! visão pavorosa

a voz sem rosto, o texto sem contexto


9 comentários:

ricardo magalhães disse...

a vida é a arte dos "alôs" embora haja bem mais telefones mudos nessa vida...

esse mês de novembro foi especial por aqui!! cada escrito mais visceral que o outro, sem falar no seu estilo, que marca cada palavra... chapei!!

Sérgio Luz disse...

vive e ninguém vê. e poucos vêem quem vivem.

vanessacamposrocha disse...

antes do telefonema: a vida!

Marcela Bertoletti disse...

Se é preciso falar alô 3 vezes, é telemarketing, por isso desligo na segunda.
Um telefone tocando é uma janela para o infinito. Acho que foi Quintana que disse isso.
às vezes me dá medo, às vezes eu não sei o que dizer, às vezes eu simplesmente não atendo. É bom também poder ficar fora de área.

beijo

franciscoferraz disse...

enquanto você corre e não se move porque ninguem te vê viver - o telefone realmente pouco importa - eu tenho lido você viver. é um movimento às vezes dificil de acompanhar.
decifro nos versos algumas coisas, seus trotes. nada deve ser interrompido? trote. quem te enxergar vivendo vai te interromper, ainda que seja nada, deve ser bom.

Sara L. Miranda disse...

Gostei muito daqui. Parabéns. Bjs

guru martins disse...

...por enquanto
voce pode se dar
a esse luxo
mas de repente
isso muda e tu se torna
mais tolerante...

bj

Mel. disse...

máquina pavarosa essa, hein... hahah
bem legal mesmo!

Mai disse...

mas o silêncio é insuportável, né?
e você poema o cotidiano ruidoso e raivoso...

abraços.