quinta-feira, agosto 31


Penso que ficar parada é mais seguro

Mas o corpo me descompassa
Segue
Se desconforta
Envelhece
Meu corpo vai antes de mim
E por mais que doa, ando
Encolhida
Por mais que noite em mim, dia
Sim dia sim o corpo escolhe
Se esparramar
Sempre dois passos a frente
Meu corpo
No tempo, minhas rugas
As pegadas
De um invólucro que se move
Ainda que estático
Ainda que sublime o tato, o tanto
Que pense não sentir
Mente, o meu corpo
Mente minha mente
Que para e se prepara
Para o pior que não existe
Enquanto uma voz ao fundo
Às voltas de um corpo mudo
Sussurra, em desespero
Seguro é seguir

quinta-feira, junho 15

Domingo à noite


Já não podemos ser quem de dia acreditávamos.

Embebidos pelo calor visto da janela,
emanando aos olhos
a força latente de todas as coisas.

Se ao menos saíssemos,
se ao menos falássemos,
ou agíssemos
antes do crepúsculo.

Deixe-me acender este cigarro e 
iluminar os sonhos.
Amanhã sabemos,
acordamos nas cinzas desta noite frívola.
Por agora nos regozijemos
na possibilidade de não despertar.

domingo, março 13

Esquisito


Esquisito, palavra perigosa. Esconde atrás de si represa de medos. Amálgama de diferenciações, meio escudo que fere.

Olho minha casa, talvez eu tenha um gosto meu. Mas pressinto que se houvesse um álbum de fotografias com todas as casas que habitei, seriam todas elas parte desta equação. A que resulta nestes tapetes, nas almofadas, na cor da parede. Estão até as que não estão aqui; lampejos de caminhos que decidi não tomar. Tudo que já vislumbrei, está aqui. O que não está, o esquisito, não deixa de ser presente, por essa ausência determinada, muito bem escolhida, existindo no seu oposto.

Acho que finalmente entendo as máscaras africanas.


quarta-feira, dezembro 16


E se eu morrer amanhã?

Tenho pensado nisto toda vez que hesito. É absurdo e ao mesmo tempo completamente aceitável. Na possibilidade do que não espero se concretizar, realizo minhas pequenas reticências. Gastar com táxi para casa, comer o terceiro hambúrguer da semana. Dizer o amor.

Quando foi que me abstraí? Tantas interrogações me afastaram da resposta. O silêncio é a resposta, suspeito.

Se alguém te deixar no vácuo, contemple. Aí está a maior verdade que podem te dar. Poucas coisas falam mais do que uma pergunta sem resposta.

E se eu morrer amanhã? O que terei feito do hoje, esta entidade? 

E por não ter resposta, 
vivo.


Como se ontem tivesse morrido.


domingo, agosto 2


nus, atrás do peito,
ainda que distantes
despidos de nós mesmos
- ainda que ausentes -
a contemplar com atenção
duas miragens que 
talvez se esbarrassem
borrassem, colidissem
quem sabe 
paisagem