Viver a vida como Bob Fosse fala do show business, o excesso e a falta. A melancolia salpicada em purpurina, a tristeza no auge da euforia. A máscara e o conteúdo, a discrepância, o abismo. A repetição, a reiteração. Viver a vida com todo aquele jazz, aquele samba, a bossa nova. O jeito manso, o jeito audaz, o jeito algoz. Todo excesso será castigado onde se descartam extremos que não sejam encenados. Encenemos. Que caminho revela o conteúdo, que forma expressa o núcleo central. Desvirtue-o, melhor, inverta-o. Que gesto vindo do meu braço esquerdo culminando na minha mão descarga devidamente a vibração do meio das minhas costelas. Descarga estética, o extremo oposto. O coração é a metáfora, a forma. Porque bombeia, espalha o sangue. Porque falha e denuncia. Mas atrás do coração, a energia. Meu coração metafórico é uma metralhadora em estado de graça. Não tem graça nenhuma, eu sou toda blindada. Parênteses breve: cada tiro me sai pela culatra. Meu impulso bate e volta, minha preguiça é cansaço; existe uma guerra dentro de mim. Um carnaval ao avesso. Eu não sou o que vejo no espelho. Não sou essa pele, não sou essa boca, essa sobrancelha grossa, essa pessoa alta. Não sou tão grande assim. Eu sou algo incomunicável dentro disso, disforme, minúsculo. Às vezes, me olho no espelho e não sei o que fazer comigo. Fecha parênteses, me pinto. Não tem ato para a tristeza no espetáculo, não tem nada que se revele na sombra que interesse ao público, apenas o desejo de luz, o palco, o holofote. Que continue o show, que a carga dramática potencialize a encenação para que a mentira seja só o figurino da verdade caricaturada. Aplausos.
Terça-feira, Dezembro 15
Quarta-feira, Dezembro 9
Rompimento
Hoje, inventei de dormir
no lado da cama que antes
cabia a você - ainda o seu formato
encaixei no seu contorno,
mas não me dupliquei
apenas encobri sua ausência
com meu corpo gelado
larguei a manta, que venha o frio
pra minha forma única desformar
suas linhas na minha cama
pro meu peso novo de uma pessoa só
remodelar seu buraco no colchão
assim garanto que o próximo
que por ventura se aproxime
não se aproveite dos seus vestígios
nem das pistas que sua sombra
em mim possa dar
(cansei das repetições)
se vier alguém que invente um modo;
um caminho inédito no labirinto destes lençóis.
A partir de amanhã, durmo no meio
debaixo da manta e só
me permito ser descoberta
quando amontoar em mim calor próprio
suficiente
amor próprio de pessoa imperfeita
sujeita a ser aberta
Segunda-feira, Novembro 30
entrecortado
quantas vezes você diz
alô ao telefone mudo?
por quanto tempo suporta o rasgo
do silêncio, a não resposta?
eu respondo o telefone sem dizer
uma palavra, me dou o luxo de esperar
ser dita
eu digo alô cinco vezes, cada vez
mais puta que a outra. tenho certeza
de que alguém está lá (por toda a minha vida
tentaram me contar um trote)
eu digo alô dez vezes, cada vez
mais alto que a outra. tenho certeza
de que me escutam mal. porque grito
e não me ouvem. porque corro
e não me movo. porque vivo
e ninguém vê
eu não atendo o telefone, é extremamente
arriscado
pode ser engano, pior: pode ser que alguém
realmente queira falar comigo
eu não tenho telefone
nada do que esteja fazendo, ainda que
seja nada, deve ser interrompido
coser a vida me custa atenção, um susto
furo meu dedo. me relaciono a duras penas
com aquilo que vejo; trim! visão pavorosa
a voz sem rosto, o texto sem contexto
Quinta-feira, Novembro 26
Eu e ela
Antes, era só, eu.
Até que sem mais, fomos eu e você.
Depois disso, era sempre eu e ela:
a ausência que você deixou.
Que tomou vida própria,
quis fugir de mim inquieta
por outros braços, outros olhos,
um canal qualquer.
Depois cansou.
Foi habitando em mim mesma,
no meu desassossego.
Calou perguntas
que não tinham resposta.
Virou hábito, tomei gosto.
E hoje ela descansa.
Juntas conversamos conversas absurdas
e tomamos chá em dias de muito calor.
Agora deu pra ser possessiva.
Não abre a porta pra estranhos.
Não deixa ninguém se apresentar.

