quarta-feira, outubro 13

André


Não era que eu mentisse sempre, mas as palavras às vezes saltavam de mim antes que eu pudesse possuí-las. Lançavam-se para fora da minha boca como anticorpos caducos. Quando Sílvia entrou na sala, pude perceber que qualquer coisa estava diferente. Ela me fez mil perguntas, às quais respondi com rapidez e displicência, evitando ao máximo o compromisso com as palavras. Sílvia insistia em me confundir. Queria entrar em mim por um lado, depois queria entrar pelo outro, como que me encurralando nestas voltas que dei em mim mesmo.


Fez as mesmas perguntas de formas e entonações diferentes para depois comparar as respostas. Eu fingia que não percebia e deixava que prosseguisse, tomando o cuidado de não me contradizer. Será que tinha descoberto, depois de tanto tempo? E se sim, o que a faria tomar esta atitude sonsa? Sílvia. Eu gostava dela. Até suportava um encontro familiar ou outro, almoço na casa do primo, visita à tia no hospital. Tudo para que no final do dia ela me abrisse as pernas daquele jeito magnético que só ela sabia. Mas naquele dia as portas pareciam mais fechadas do que costumavam estar. Tentei tocá-la e ela logo seguiu para a cozinha com a desculpa de um copo d'água. Tudo bem, pensei. Uma noite a menos de sexo e ninguém morre por isso. Sílvia voltou da cozinha com um copo de coca-cola e me ofereceu sem dizer uma palavra. Ligamos a televisão para ver o telejornal. Aquele silêncio começava a me incomodar. Sentia algo estranho no ar, alguma coisa tinha acontecido naquela semana e ela parecia supor que eu sabia e que era eu quem devia tocar no assunto. Comecei a revisar todos as minhas ações pensando em algo que pudesse ter desencadeado tamanha desconfiança da parte dela. Levantei com a desculpa de ir ao banheiro e vasculhei rapidamente o apartamento em busca de alguma lembrança que uma das visitas pudesse ter deixado à vista, uma calcinha, uma camisinha usada. Senti-me um tolo por desconfiar assim da minha própria sagacidade e retornei ao sofá certo de que não havia nada a temer. Logo no primeiro intervalo, estou grávida, ela disse. Como se dissesse que queria viajar. Antes que eu pudesse manifestar qualquer emoção ou mesmo tivesse tempo de escolher qual emoção manifestar, ela completou, e não é seu. E não, eu não vou tirar. Aparentemente aquelas pernas andavam se abrindo para outra pessoa que não eu, logo ela, logo Sílvia, santa Sílvia, filha de militar com uma costureira, família tradicional carioca, planos de casamento e lua de mel em Portugal, logo ela, santa Sílvia, tinha me colocado um belo par de chifres e trazido de brinde um rebento pra casa. Eu entendo se você quiser terminar tudo, continuou, talvez seja a melhor coisa a se fazer. Ela não pensava assim, eu sabia que ela não pensava assim. Estava me testando. Disse isso porque sabia que era exatamente a coisa que eu falaria se ela tivesse me dado o tempo correto de réplica e o fez para me provocar, me ver confrontado com minhas próprias palavras, estava me encurralando, como sempre fazia. Não seria fácil assim.


Casa comigo?, eu perguntei, esforçando-me ao máximo para que meus olhos de ira parecessem de um cão faminto na frente do dono. Casar? Ela riu. Você é louco, ela disse. E não aceitou minha proposta. Naquela noite eu perdi Sílvia e o filho que teríamos juntos, de outro, mas adoção sempre me pareceu uma opção humanitária. Adotaria sim o filho de outro desgraçado que caiu no meio das pernas de Sílvia, quem poderia culpá-lo? Aceitaria sim aquela mulher que havia dado suas voltas pela cidade e assim poderia me redimir da culpa pelas minhas próprias. Mas ela não quis. Propôs que ficássemos daquele jeito indefinido até o menino nascer e depois, talvez, seria melhor terminar, pela sanidade dele. Eu tinha certeza que seria um garoto. O pai era um gringo que morava metade do ano aqui e metade do ano na Inglaterra, ela gostou da ideia da dupla nacionalidade, quem sabe, até uma formação bilíngue para a criança. Por este golpe eu não esperava. Sílvia agora ia morar no exterior e me deixar aqui sozinho, eu e minhas camisinhas usadas que agora já não havia mais por quê mandá-las descarga abaixo, bastaria enfiá-las na lixeira do banheiro sem nem me dar o trabalho de enrolar no papel higiênico. Pronto, era isso, relação aberta, abertamente aberta. Para meu azar, as pernas de Sílvia já não se abriam para mim com tanta facilidade e eu tinha a estranha sensação de estar invadindo a casa de alguém enquanto visitava aquele espaço. A casa de um gringo, eu me sentia um estrangeiro naquele receptáculo onde durante 11 meses depositei meu sêmen e minha melhor virilidade. Preciso de visto agora? E ela não tomava pílula? Pensei em contar tudo, que via outras mulheres, que ela não era a única na minha vida. Mas não consegui e chorei, pateticamente. Você deixa eu visitar o garoto?, perguntei, pensando que o gringo não teria capacidade de ensinar o moleque a jogar futebol, Sílvia não tinha irmãos, quem ia passar a cultura brasileira para esta criança? Ela achou graça e riu de mim, passando a mão na minha cabeça. Naquela noite, não transamos. Dormimos abraçados antes mesmo da novela terminar.



9 comentários:

Luka disse...

Ótima reestréia Lu
mas que triste isso
do jeito que eu gosto rs

Juan Moravagine Carneiro disse...

Andei meio ausente por vários motivos, mas aos poucos estou voltando

abraço!

vanessacamposrocha disse...

que texto denso e bem escrito!! É para um livro?

Luanne Araujo disse...

obrigada, Vanessa! :)
não é para um livro, é só um texto solto mesmo.

Mai disse...

Os relacionamentos e suas urgências. Gostei muito desse texto, Luanne. Escrito sob um olhar diverso. Gostei mesmo.Uma ficção mais-que-real e até diria um tanto triste.

abraços e boa semana

caio disse...

que triste! mas a vida é assim mesma, se rir chora...

guru martins disse...

...muito
bom!!!

bj

Mai disse...

Cadê mais deste???...

Marco Antonio Mattos Rezende disse...

Parabéns!
Muito bom...
Enquanto sonhamos com o futuro,
a realidade escreve a história.

Abraços...

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