domingo, maio 9

Iso




Maria defendia que uma máquina fotográfica bem intencionada era protegida pelo véu da invisibilidade. Carlo detestava seu hábito recém adquirido de tirar fotos de desconhecidos. São partes de mim que reconheço, ela dizia serelepe enquanto clicava tão contente que sua alegria não a deixaria ver o desagrado alheio caso alguém não gostasse de ter sido flagrado pela lente de um estranho. Já escurecia quando os dois saíram da loja de roupa de cama com travesseiros novos. Maria sacou a câmera da bolsa, Carlo tentou argumentar que a pouca luz não deixaria que as fotos ficassem boas. Maria disse que não tinha problema, resolvia com o iso. Iso? Ele não chegou a perguntar. Tinha aprendido logo nos primeiros meses ao lado dela que quando queria algo, nenhum argumento contrário era suficiente para impedi-la. A noite está tão amarela, ela dizia enquanto tirava uma foto do bueiro. Não era um prazer que Carlo compartilhava, ele se limitava a seguir ao seu lado e a pensar nas coisas a fazer do dia seguinte.

Foi quando Maria pegou no braço de Carlo pedindo-lhe para parar por um instante que ele pôde pressentir o perigo. Como que hipnotizada, Maria tirava uma série de fotos de um homem recostado na parede. Ele vestia um uniforme que poderia ser de um auxiliar de enfermagem ou de um fugitivo do hospício. Carlo não gostou nada do clima sombrio do homem com aquela noite deserta de domingo, pediu à Maria que fossem depressa porque tinha fome para não assumir que estava com medo. Maria continuou clicando o homem enquanto ele fazia alguns movimentos alongando o corpo ao longo da parede escura. Até que o homem levantou a cabeça e fitou-os diretamente. Sem pudor, sem timidez, o homem os encarou com tamanha certeza que seus olhos de lente pareciam absorver mais do que transparecer, mais ainda do que a câmera na mão de Maria. Maria parou de fotografar. O homem fez menção de levantar-se, Carlo segurou o braço de Maria e exigiu que eles fossem embora. Logo o homem deu meia volta e entrou por uma porta no corredor, transformando o medo de Carlo num certo embaraço.

Maria olhava as fotos metida no visor da câmera, Carlo resolveu dar uma espiada para ver o que ela tanto olhava. A foto ficou azul, ele disse surpreso, tudo era tão amarelo naquela noite. Maria sorriu da surpresa dele e atentou para os flocos brancos que voavam ao redor do homem. Carlo ficou confuso, Maria sorriu. Numa hora, ela disse, alguém deve ter jogado restos de um embrulho de presente pela janela porque caíram flocos de isopor. Carlo olhou para o chão desconfiado e confirmou os restos do material que se misturavam ao esgoto. Parece neve, ele disse, perdido na diferença entre o que ele tinha visto e a foto que Maria havia tirado. Maria guardou a câmera e se pendurou ao braço de Carlo, achando graça da confusão. Vamos, ela disse, também estou ficando com fome. Carlo que achava já ter fotografado todos os ângulos daquela mulher que há quase dez anos dividia o mesmo teto com ele, gostou da novidade recém instaurada. Não entendê-la completamente contanto que ela continuasse lhe mostrando flocos de neve feitos de isopor. Que continuasse pintando noites amareladas com véu azul.

(Conto escrito a partir da foto acima, proposta de exercício feita durante a Oficina de Escrita Criativa ministrada por Ondjaki)

5 comentários:

Usui de Itamaracá disse...

Os outros contos da oficina, por acaso, eram tão envolventes assim também? x)

Luka disse...

Gostei de como tirou o foco do instante da foto para um instante de um casal

Juan Moravagine Carneiro disse...

Me fez lembrar "Dalton Trevisan em Desastre do amor"

Belo escrito

Abraço

Mai disse...

A cena que você criou conduzia para um final com muitas possibilidades.
E assim foi se pensarmos naquilo que os olhos alcançam. Bem, eu já gostava de tua escrita depois desta oficina aumenta a expectativa.
Fiquei presa. Muito legal!

beijos

guru martins disse...

...absolutamente
lindo:})

bj