domingo, fevereiro 7

Teresa


Nunca sabia exatamente quando e mesmo se viria a próxima vez que se encontrariam novamente. Dependeria da agenda de compromissos dele, da chuva, da notícia do dia e, principalmente, embora nunca fosse dito às claras, de uma vontade rala e imprevisível que surgia nele de aparecer. Não precisava que fosse verbalizada a quase não existência desta vontade, se é que se podia chamar desta forma tal leve comichão, que invadia, melhor, pinicava aquele homem e fazia com que tirasse o celular do bolso ou lhe enviasse um e-mail, duas linhas, perguntando se naquele dia era bom pra ela. Fim de semana quase nunca, ela sabia, porque tinha o futebol, o chope com os amigos, as tantas possibilidades melhores que uma noite de sábado poderia oferecer. E marcar com antecedência não era seu costume.


Verdade é que nunca poderia ser melhor programa para ela. O e-mail com seu nome piscando em negrito na caixa de entrada ou uma mensagem fechada que indicasse seu número já disparava um jarrão de fogos como um ano novo surpresa. Não poderia ser coisa ruim, pois ela tinha certeza de que este homem, se um dia resolvesse desaparecer, não se prestaria a avisar, nunca falaram em nenhum tipo de compromisso. Na verdade, o aviso era querer vê-la de novo. E estava dado. Ela então sairia do escritório direto pra casa, se besuntaria daquele creme para ocasiões especiais, colocaria perfume, mas nunca demais, e sentada no sofá esperaria completamente imóvel que o relógio a transportasse para além. Porque pontualidade aquele homem tinha. Quando escutava tocar a campainha, a convicção temerosa de quem se vê indo com as próprias pernas para as mãos de seu carrasco, por qualquer motivo muito próprio, a invadia, mas nunca o abalo era suficiente para superar a previsão de como seria abrir a porta. Aquele homem em cujas mãos ela se perdia, que poderia a engolir se quisesse, embora nunca tivesse querido, aquele olhar seguro de quem sabe o protocolo e não se invade por maiores emoções. Mas que poderia, eventualmente. O olhar que brilharia como águas noturnas de oceano levemente disfarçado pelo reflexo anti-natural de um par de óculos de aro fino, o cheiro quente de pele bronzeada. E ela abriria a porta, logo o sorriso, os braços, as pernas, numa progressão crescente de abertura que culminava na explosão de sua alma, lugar onde ele nunca ousara entrar. Não por medo nem timidez, por pura falta de interesse em adentrar um lugar tão exposto, como um mapa que se olha por alguns instantes para entender as dimensões, mas logo se distrai com algo mais tridimensional ou que talvez ofereça maiores mistérios.



(Continua)

5 comentários:

franciscoferraz disse...

Li o texto, e se querer deixei o olho ir escorrendo, li outra vez o de baixo (meu predileto, meu querido). Pensei que amor é tipo um anti-sentido da vida. Tudo já é tão importante, e ainda tem todo o resto, e ela (e eu) passa(mos) a semana inteira esperando esse nome em negrito, ou esse número. Deve ser medo de tudo, ou do resto.

Mai disse...

Uma "rala vontade" pode ser má vontade ou malquerer, mas também pode ser que 'esse um' que se dá tão pouco, receba demais da Tereza e assim, o desmesurado amor dura e dura assim...
Mas também pode se,r que um e outro sejam mais medrosos que amantes. E se O medo congela, a vontade pode embotar o querer.
Vou esperar a continuação.
Abraços

franciscoferraz disse...

Será então que eu tenho que crescer, ou é você que está apaixonada?

(isso foi um tipo sério de) piada.

franciscoferraz disse...

(completando) Acho que o fatal é que em grande maioria, seja por falta de instrução ou de vontade, as pessoas experimentam o amor feito religião. Para o amor que eu prefiro, de duas uma, ou ele é experimentado de forma pura,digo sem interferencias e canções explicativas sobre o amor (o que hoje em dia é praticamente impossível, só existe em teoria), ou então se pensa sobre ele, se aprofunda, se descobre. Porque, para mim, o amor, assim como a religião, deveria ser uma experiencia pessoal, não coletiva e muito menos midiatica, mas sempre é assim... e esse é o problema, aí a gente sofre ou esperando ou sendo esperado.

vanessacamposrocha disse...

ótimo texto Luanne, fiquei com raiva dele, dela, com medo e até com um sentimentozinho de não sei o que!