sábado, novembro 21

Bem-vindo à Terra, Tomas

Como montar uma pessoa? Do que é feita a vida que pulsa na veia de um ser que se diz humano? Era esta a pesquisa última de Tomas na Terra; sua missão. Antes que falhasse seu corpo pelos efeitos do tempo, antes que se esvaísse dele a essência que fazia dele um ser vivo, teria que descobrir qual era o substrato que assim lhe tornava. Antes que ele, por descuido ou por fatalidade, entornasse algo essencial que não mais pudesse recuperar. Precisava tomar posse da essência que lhe fazia ser ele próprio e não outra pessoa qualquer. O que seria um Tomas? Era ele um Tomas? Seria ele mesmo com outro nome, outro sexo? Talvez aí pudesse encontrar a chave do mistério da existência: na sutileza ou na aberração, ainda não ousara definir, do diferenciar-se de outra pessoa. Mas temia diferenciar-se a ponto de evidenciar sua natureza discrepante, o que tentou disfarçar arduamente durante toda sua sobre-vida.
Tomas era mesmo um bom observador, mas não sabia criar movimentos ou representações que parecessem genuinamente humanas. Então copiava sem dó, mas disfarçava devidamente. Com o tempo de vida que lhe havia sido concedido até então sem que tivesse escolha ou mesmo sem que lhe fosse permitido preparo, pôde notar e humildemente chegar à uma conclusão - pois poucas conclusões se permitia antes de alcançar a verdade última que buscava. Reparou que as pessoas não enxergavam muito bem ou não se importavam. Ele que usava óculos mesmo sem lentes podia ver coisas que quase pareciam suas por não serem vistas por mais ninguém. Mas fingia não ver pois era assim que se fazia ao seu redor, e as coisas terminavam passando sem dono pelo mundo afora. O que lhe dava muita pena e lhe inspirava as mais sublimes divagações. Sonhar com o que no seu íntimo se sentia atraído por, ainda que não o admitisse, era seu único capricho. Mas seria evidenciar-se demais apropriar-se de impressões e assumir gostos que lhe pareciam peculiares e provavelmente inapropriados.
Não era mesmo audacioso. Só uma coisa copiava descaradamente: trejeitos. Mas isso era involuntário. Um gesto de outra pessoa que lhe provocasse simpatia - o gesto puro, não a pessoa - passava então a fazer parte do seu vocabulário gestual. Era sem controle e com bastante constrangimento que se pegava muitas vezes reproduzindo o gesto na frente de seu próprio autor e parava no meio certo de que seria pego e repreendido. Mas não. As pessoas que simplesmente viviam de forma tão natural não pareciam capazes de reconhecer nem mesmo suas próprias criações gestuais.
Assim Tomas aprendeu em pouco tempo a costurar sua identidade secreta, enquanto tomava tempo para buscar aquilo que nele se escondia como um órgão não utilizado no seu próprio corpo. Precisava saber que órgão era aquele e colocá-lo para funcionar, este órgão talvez fizesse dele um Tomas, o Tomas, ele.
Não sabia dizer exatamente quando começou a busca. Lembrava-se vagamente de um sonho, um velocípede em direção a um abismo, ele caindo da cama e uma frase que ecoava junto com o despertar no susto: bem-vindo à Terra, Tomas. E tal saudação ao mesmo tempo que irônica, soava intrigante e incitava-lhe a encontrar o interlocutor que lhe estatelou no mundo enquanto lhe dava as boas-vindas. Deveria haver uma celebração em algum lugar do planeta, talvez até dentro dele mesmo.

Um comentário:

franciscoferraz disse...

'podia ver coisas que quase pareciam suas por não serem vistas por mais ninguém'

seria prepotencia imaginar que talvez eu já tenha visto, passeando pelo mundo, algumas dessas coisas? eu sinto assim.

percebi, lendo agora, que você escreve por frases. escreve como quem desenha, ou melhor, pinta. dá pra ver os traços que vão formando o quadro. no fim o quadro (todo)ainda consegue ser surpresa boa.

eu também almocei no verdinho aquele dia.

me conta quando postar o texto que escreveu e releu demais?

até mais.