terça-feira, abril 6

Capitão-de-Mar-e-Guerra


Não se lembrava muito bem de como nem por que foi parar ali, mas recordava-se claramente do dia em que percebeu onde havia se metido. Era Janeiro sob o sol de meio dia e a série de exercícios já durava mais de uma hora e quarenta. Rumores circulavam que o instrutor havia sido mal sucedido num encontro na noite anterior, o que justificaria seu endurecimento acima do normal no treino dos aspirantes. Depois de uma noite decepcionante, talvez fosse mais do que direito seu extrair alguns litros de suor de duas dúzias de pré-homens preguiçosos. Entre eles, Bruno, que repetia os exercícios tentando pensar em outra coisa; a forma que encontrou para fazer com que aquilo passasse mais rápido.


Fosse pelo sol, pelas voltas a mais ao redor da quadra, pelo café que deixou intacto porque estava abafado demais o refeitório, não agüentou a segunda rodada de flexões e caiu com o peito estatelado no chão de cimento quente. Os cotovelos tremiam de dor e gozo, as mãos espalmadas anunciavam que não aguentariam muito mais tempo naquela temperatura. E foi então que sentiu o pior gosto que se lembraria pelo resto da vida. Enquanto tomava fôlego como quem estava prestes a se afogar, sentiu tapar sua respiração um troço de couro gasto, sujo de terra, de poeira, com gosto de vaca morta, de pele seca. A bota quis entrar na direção da sua boca, mas a sinusite impediu que ela continuasse e lançou o corpo para cima num gesto de sobrevivência, precisava respirar. Foi quando sentiu nas costas a outra bota, irmã da primeira, segurando seu peito contra o chão pelando e ele teve certeza de que levantaria com bolhas de queimadura no rosto. Era a tampa do esgoto sobre a qual estava.


Depois disso, algumas palavras de autoridade que pouco importavam. Tudo que tinha que fazer era ficar quieto, como se não fosse digno, como se não fosse gente, e aquelas botas o deixariam respirar. A partir dali, soube o que queria da vida: queria calçar as mesmas botas que um dia lhe fritaram no chão. Queria fazer os exercícios como nenhum outro aspirante, já não pensava em outra coisa, mentalizava cada músculo do seu corpo ganhando força, preparava sua vingança. Receberia as honras da Marinha com um sorriso solene e merecedor. Mandar seria sua honra. Gritar seria desnecessário. Faria com que a autoridade jorrasse do seu olhar fuzilante, seu ódio acumulado durante todo este tempo, condensado num corpo enxuto, preparado, armado de sarcasmo e autoridade. Lançaria lama no primeiro preguiçoso que não cumprisse a meta de exercícios do dia. E se todos cumprissem, haveria um dia no qual a meta aumentaria mais ainda, de forma que apenas os mais preparados pudessem mostrar seu valor e tinha certeza de que um jovem provavelmente magrelo, provavelmente desejando que não estivesse ali, provavelmente com medo, muito medo, não agüentaria a série de flexões caindo estatelado no chão. E então ele enfiaria suas botas recém lustradas na boca do maldito que não deveria ter nascido. Pela promessa deste dia, ele continuaria até o fim.


Esperou que as botas cansassem, fez o dobro das flexões que foram pedidas. Levantou num pulo, bateu continência e afirmou para si a previsão da vingança com o olhar no infinito, gritando do âmago de um ódio recém nascido: "Sim, senhor!".

3 comentários:

Mai disse...

Vitma de ontem algoz amanhã...A vingança é um assassino silencioso que mata um outro e a também a si.
É um ácido que corrói a mente e o coração.
Mas esta é uma das chagas da humanidade e quem é humilhado não admite encerrar o ciclo vingativo.
Mas o teu texto poderia ser um filme baseado em fatos reais, com cenas humilhantes de veteranos aos aspirantes.
Triste ficção da realidade.

Luka disse...

me lembrou muito aquele personagem de nascido para matar. O que é um grande elogio

Sérgio Luz disse...

é, devo concordar que foi um grande elogio mesmo.