quarta-feira, setembro 23

bilhete num livro usado

tenho tropeçado em pensamentos e pulado detalhes. a pressa rasgou minha camiseta na maçaneta na porta quando saí. eu que engato uma imagem na outra, engasguei quando vi a verdade: o mundo não é esse que eu inventei. eu que canto pra dentro, danço pra dentro, grito e monto castelos, tomei um susto quando calei e senti o vento que vem de fora. não sei se alívio ou desespero, o vento levou meu castelo de areia num movimento espiral bonito. o desvelo me trouxe calma. não existe uma verdade só e isso a gente já aprendeu faz tempo. mas eu não sei como faz pra comportar a minha verdade cambiante num mundo tão sólido. como quem não sabe o que fazer perante a ameaça do vínculo que se encerra num elogio, eu não sei o que fazer com as coisas doces que a vida me traz. não sei me comprometer com essa sucessão singela de coisas que seguem acontecendo a cada instante e pedem para entrar em mim, me chamam para desaguar de olhos fechados neste redemoinho de água doce. eu tenho sentimentos que não existem; e tenho medo. a minha cabeça quebrada fez do meu corpo um encaixe sem peça que me caiba. vivo me dissolvendo e me sugando, eu e minha alma de gelatina numa geladeira quebrada. posso ser bruta, mas não tenho força interna pra parar isso sozinha. por isso, pairo na beira do rio e espero você me empurrar.

3 comentários:

... disse...

Amei!

: )

Namastê.

Ekatala

Marcela Bertoletti disse...

Muito bom! Um jogo com as palavras, muitas imagens e uma frase em especial "eu tenho sentimentos que não existem." Adorei.

Beijos

guru martins disse...

...e quando eu
te empurrar
voce vai voar
cair pra cima
pro ar
se lambuzar de vento
levitar
e voltar ao balaio
com a camiseta rasgada
e a alma arejada...

bj